segunda-feira, 2 de novembro de 2015

NÃO SOMOS TAGARELAS

(foto: Maria Pena Monteiro)

Eu explico-vos, então.

Uma mulher de poucas palavras é coisa que talvez exista, sim, mas não constantemente! Não proliferam! Não é habitual. Não por feitio! E assim chegamos ao ponto do “i”. Não se iludam! Uma mulher de poucas palavras, geralmente não é feitio, é sintoma!

Os monossílabos só fazem parte do nosso vocabulário se estivermos cansadas ou zangadas. Posso, no entanto, dar-vos umas dicas.

Um monossílabo arrastado indica cansaço extremo e no limite. Perante isto calem-se! Desapareçam! Voltem mais tarde! E se possível levem as crianças!

Um monossílabo suspirado também indica cansaço, mas pede mimo! Pede atenção! Pede que tomem as rédeas do dia!
(Atenção! É mimo! Não é sexo! Ok pode ser sexo, mas só depois de 5 ou 6 sorrisos de satisfação! Se calhar é melhor esperarem por uma gargalhada, ok?)

Um monossílabo curtíssimo, rápido, quase inaudível, é o chamado “monossílabo Etna” (só porque o vulcão Eyjafjallajökull é impossível de se pronunciar e eu estou aqui para vos facilitar a vida).
Perante este, prestes a explodir, cuidado! Muito cuidado!
Lembro-vos que, na dúvida, o silêncio com olhinhos de “hush puppie” é sempre preferível à pergunta “o que é que foi?”. Isso nunca! Lembrem-se que estes monossílabos acontecem porque vocês fizeram asneira! Perguntar o que foi é exporem-se a fuzilamento!
Sugiro que se afastem! Mas desta vez devagar, com passos pesados, cabeça baixa de culpa e o tempo suficiente para vasculharem mentalmente os últimos dias, ou meses, ou anos, à procura das asneiras em que incorreram. Sim, porque um “monossílabo Etna” só existe no cume de erros sucessivos. No limite da paciência duma mulher! Lembrem-se disto! Tentem resgatar nos vossos ficheiros de memória, aquelas 325 mil conversas infindáveis que ela tentou ter convosco sobre qualquer assunto da vossa relação!
Colem as peças que vos sobram. Aquelas que conseguiram registar no meio do tédio que fingiu ouvi-la!
Se chegarem a alguma conclusão firme, tentem resolver a situação, reverter o padrão, assim que surja a primeira oportunidade! Se não chegarem a nenhuma conclusão, se não aguentam mais a pressão do silêncio dela, sugiro que procurem saber o que se passa, mas nunca perguntando! Afirmem! Digam-lhe que já perceberam que ela não está bem! Que não gostam nada de a ver assim, triste! Façam das tripas coração e digam-lhe que precisam de conversar… e preparem-se para uma chazada em jeito de DR (discutir a relação) com algumas acusações, há largos anos atravessadas!

Mas no final, em silêncio, agradeçam! Porque uma mulher que não perde tempo para conversar convosco, já desistiu. Já a perderam!

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 16/05/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/nao-somos-tagarelas-por-susana-beirao/

ESTÓRIAS DE TÃO LONGE TÃO PERTO – 3 GESTOS


Roubei descaradamente parte do título a Wim Wenders, para vos contar pequenas estórias de quem vem de longe e nos aproxima das suas vidas, por algumas horas, aqui no aeroporto, por onde passam, pontualmente ou por rotina.

Entrou no Lounge com pressa, já ao final do dia.
Mesmo assim vinha meticulosamente arranjada, como se tivesse acabado de sair da frente do espelho! O cabelo liso e solto, as unhas perfeitas, as calças pretas da melhor fazenda e corte, a blusa de seda cor-de-rosa, suave, elegante, fluida.

Vinha, com urgência, imprimir o talão de embarque.
Vinha com urgência, sim. Desde o primeiro segundo que notei que vinha com urgência. Uma urgência estranha, que não era só pressa.
Tinha um sotaque vincado do Porto. Era para lá que voltava.
Estava ali parada à minha frente de óculos escuros. Parada, mas irrequieta.
A cabeça sempre baixa e o olhar sempre de soslaio, por de trás dos óculos.
Parecia vergonha. Mas ela não me parecia tímida!
Parecia medo. Mas ela parecia-me tão destemida, quando entrou!

Enquanto esperava, suspirava.
Senti os olhos dela cravados nos meus ombros.
Senti os olhos dela à boleia dos meu movimentos.
Mas de cada vez que olhei para trás, ela tinha a cabeça enterrada nas mãos e os dedos, como pentes, presos entre os cabelos.

Perguntou-me se podia ir à casa de banho. Indiquei-lhe onde era.
Demorou-se, ao ponto de eu me preocupar.
Reparei na sua mala. Ia cheia. Cheia demais.
O fecho denunciava algum esforço; um fecho éclair em tensão.
Será que rebentava antes de chegar ao Porto?
Ela voltou. Guardou uma bolsa na carteira e veio ter comigo novamente.
Pegou no talão de embarque e antes de me agradecer tirou os óculos escuros e arregaçou as mangas.
As suas mãos, hidratadas, de unhas cor de vinho, sem cutículas, afagaram veementemente o próprio rosto, exageradamente maquilhado. Como quem tira uma máscara.

Nestes 3 gestos tudo se transformou!
As mangas caídas até ao cotovelo despiram vários arranhões!
A base e o corrector que a palma da mão limpou cobriam 2 hematomas num olho e na maçã do rosto.

Com estes 3 gestos, à minha frente entendi a urgência que ela trazia.
Antes de me virar as costas ainda consegui balbuciar “está tudo bem?”
Fitou-me e respondeu: “vai ficar.”

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 18/04/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/estorias-de-tao-longe-tao-perto-3-gestos-por-susana-beirao/

HILLARY CLINTON


Hillary Clinton assume-se como candidata a Presidente dos Estados Unidos da América.
Fico entusiasmada com esta notícia! Porque é uma mulher? Sim!

Sempre assumi a minha posição em relação ao Feminismo; nos dias de hoje tem de vincar a igualdade de oportunidades entre géneros e afirmar a diferença nas acções!
Para mim faz tanto sentido que assim seja, bastando-me a confirmação da estratégia da própria mulher em causa, Hillary.
Anteriormente assentou toda a sua candidatura num discurso de total igualdade, evitando assumidamente o factor género.
Desta vez, e provavelmente tirando as devidas ilações, Hillary ilustra já na sua primeira abordagem, a importância do género, na sua candidatura.
Não há volta a dar! Não há outra forma de se candidatar e de se propor a uma abordagem feminina, em termos políticos.

Primeiro porque poderá suceder a um democrata. E ela também o é. Por aí, não representaria a diferença.

Segundo, e principalmente, porque a realidade dos últimos tempos tem vindo a agitar as mentalidades e a atenção para o papel da mulher na sociedade.
Feminismo é o discurso vigente! E é um discurso que existe necessariamente para lá da expressão “está na moda”.
A (re)emergência do Feminismo é, estou em crer, uma necessidade global, que não serve, ao contrário do que muitos pensam, apenas os interesses da Mulher, mas acima de tudo os interesses dum mundo equilibrado justo e igualitário.

Terceiro, porque no âmbito internacional a eleição de uma mulher para os comandos duma das maiores potências do mundo é, a meu ver e face ao contexto político global, uma eleição quase providencial!
Para o bem e para o mal, os EUA são o bicho papão de muitos e o “D. Sebastião” mundial para muitos.
Perante a instabilidade que emerge desde o início deste século, na onda de ideologias religiosas extremistas, que ameaçam, agridem e atacam todas as diferenças e oprimem toda a igualdade e o equilíbrio, uma mulher no pleno poder da mediação é essencial.
É, por isso e repito, providencial!

Estou feliz! E cheia de expectativas e esperança!

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 13/04/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/hillary-clinton-por-susana-beirao/

ELA. SÓ ELA.


Há uns tempos, em conversa com um amigo falávamos duma amiga comum, de infância e juventude.

Uma amiga que noutros tempos era uma criança apagada e tímida. Que noutros verões era uma adolescente insegura, gordinha e complexada. Uma amiga com quem crescemos e que já desde esses tempos eu lhe reconhecia muito mais do que aquilo que lhe perguntavam. Mais do que aquilo que dela esperavam.

Falávamos sobre a mulher em que se tornou!
Eu falava. Ele acenava entre um sim e um “hum hum”. Eu exultava-a. Ele lembrava-se.

“Estive com ela a semana passada num jantar. Que gira que ela está! Tem uma pinta desgraçada”
“Sim…”
“Estivemos horas à conversa! Acho que já não a via há uns bons 10 anos! Tinha vindo do Porto. Foi ver uma exposição no edifício AXA. Adorou! Também já estive nesse espaço e adorei o projecto! Ela vai escrever sobre isso. Eu adoro lê-la! Sempre escreveu tão bem!”
“Sei…”
“Tenho seguido o blogue dela! É incrível o trabalho dela, não é?”
“´Hum, hum…”
“E as fotos! Brutais! Já fui a duas exposições dela! Muito boas! Ela aliás tem uma visão muito interessante sobre o que a rodeia! Sempre teve! É fantástico o trabalho dela!
“Sim…”
“Contou-me que está a escrever um livro! Não me adiantou pormenores, mas estou curiosa! Faz todo o sentido, com tudo o que já tem escrito!”
“Ela já foi casada, não foi?”
Pausa…
“Já…” respondi eu entre dentes.
“Não teve filhos, pois não?”
Pausa… Tentei ignorar. Continuei.
“Fiquei muito contente por lhe poder dizer o quanto a admiro e o que ela tem feito e conquistado! Gosto muito dela! De gente assim tão capaz de se reinventar! Gente que dá cartas e que tem esta capacidade imensa de criar! Achei-a muito feliz! Muito realizada! Que pinta!”
“Sim. E afinal continua sozinha. Parece que ninguém lhe pega. Porque será?”

Pausa… E mais pausa longa. Silêncio. Espanto!

Levantei-me. Incrédula pelo que tinha ouvido! Virei-lhe costas! Sem resposta para aquela pergunta absurda!
Fui lá fora fumar um cigarro. A remoer no que tinha ouvido.
Como é possível? Uma mulher de sucesso! De referência na cultura! Que cresceu verdadeiramente! Com tanto mundo! Tão plena!
Ali em poucas palavras, reduzida a uma insinuação daquelas. Como se lhe faltasse legitimidade. Por não fazer parte de um par. Por ser só uma. Só ela!

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 17/03/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/ela-so-ela-por-susana-beirao/

HOMENS DE SALTOS ALTOS




Domingo, dia 8 de Março, “100 homens sem preconceitos”, escrevi eu na agenda, em vez de Dia da Mulher. E lá fui eu, de botas rasas e passos largos até à sala onde toda a gente aguardava, com uma expectativa que se sentia!

Lá estavam os stilettos, os brogues, os pumps, as sabrinas, os ténis e os mocassins!
Os sapatos que lá estavam fizeram sem dúvida questão de marcar presença, principalmente nos pés das mulheres, que os exibiam em tom de afirmação! Fosse pelo desafio de 12 cm de salto ou pela elegância de uns mocassinspretos!

À entrada da exposição estavam quatro rapazes, empoleirados em cima dos stilettos do Luís Onofre. Os tais da exposição.
Na cara de todos descobria-se o esforço e as mulheres, à medida que entravam, olhavam para eles com um sorriso que cantava Depeche Mode (“Try walking in my shoes…”)!

O desfile das fotos que a revista Máxima conseguiu reunir ao longo de um ano de iniciativa simbólica assalta-nos realmente muito mais do que uma expressão agradável, jocosa ou meramente estética!

Esperava fragilidade e poses atrapalhadas, confesso.
No entanto desde o meu primeiro passo naquele corredor até ao final, todos aqueles homens despiram a condescendência que eu trazia vestida.

Aquelas fotos registam atitude e remetem para segundo plano, os sapatos!
Porque cada homem que ali está teve de contornar a dificuldade de se equilibrar. Cada um à sua maneira! À semelhança de tantas mulheres, no seu dia-a-dia, tentando o equilíbrio em todos os seus papéis.
Tal e qual como me confessou o bailarino Benvindo Fonseca, que pela sua formação achava que ia ser fácil calçar aqueles sapatos:
“Foi tão difícil equilibrar-me entre um pé e o outro que depressa entendi como me deveria deixar fotografar! De repente por tão pouco voltei a lembrar-me que estava a representar o desequilíbrio entre os géneros!”.
Cada homem que ali está teve de lutar pela melhor posição em cima daqueles saltos.

Como o Nicolau Breyner sentado num banco de jardim, com uma expressão sofrida e resignada, talvez por não conseguir manter-se de pé naqueles sapatos.
Ou o próprio Luis Onofre, que só fazendo o pino, achou comportável calçar-se assim!
Ou o Rui Pregal da Cunha, firme nos gestos, com uns ténis na mão; ou serão estes a liberdade das mulheres na escolha?
Ou mesmo o realizador Ruben Alves desafiando tudo e todos equilibrado num só pé, apagando um cigarro na sola do outro!
Ou o António Zambujo sereno e livre, equilibrado na calçada.
Ou os quatro Neurocientistas que, cheios de graça e descontração, ali estão ao sol talvez lembrando-nos com ironia que as mulheres também têm um cérebro…

É extraordinário como 10 cm de salto entregam a um homem o mesmo poder, a mesma expressão e a mesma elegância!
É extraordinário como 10 cm de salto podem ser mil vezes mais altos em tanto que representam!

Pode o conceito ser simbólico, mas ali está estampada a certeza que trouxe.
Cada um daqueles homens calçou os nossos sapatos, porque nos ama, nos admira e nos respeita!
E é verdade…não há nada mais sexy do que um homem feminista!

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 11/03/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/homens-de-saltos-altos-por-susana-beirao/

ESTÓRIAS DE TÃO LONGE TÃO PERTO – EMMA



Roubei descaradamente parte do título a Wim Wenders, para vos contar pequenas estórias de quem vem de longe e nos aproxima das suas vidas, por algumas horas, aqui no aeroporto, por onde passam, pontualmente ou por rotina.

Não era a primeira vez que Emma vinha ter comigo aqui ao Lounge.
Acho que vem a Lisboa pelo menos uma vez por mês e regressa a Oslo sempre ao final do dia, às 5ª feiras.

A figura é sempre a mesma. A mala de rodinhas, o blazer azul-escuro, o sorriso cansado, a passada apressada, osmartphone entalado entre a orelha e o ombro, a madeixa ruiva sobre a testa, arranhando-lhe as pestanas.

E a conversa entre nós duas só com o olhar, dizendo “olá” e um “espera só um bocadinho, que tenho de despachar este chato aqui ao telefone”.
Tudo isto sabe Deus em que língua, mentalmente, porque nem eu sei falar norueguês, nem ela sabe falar português!
Mas entendemo-nos naqueles 2 ou 3 minutos da sua chegada.

Pouco mais conversamos. Até porque ela só quer descansar! Apagar mais uma semana de trabalho.
Passa pelas brasas até às 18.30. Só tem voo por volta das 20.00.
Quando desperta procura as horas em todos os relógios que tem à volta.
No telemóvel, no computador, no painel de informações de voo e na minha resposta.
“Susana is it almost 19.00?”. “Yes, it is” confirmo-lhe.

Volta ao ecrã do seu tablet. Em Oslo são quase 20.00.
Oiço o sinal de chamada de Skype e um sonoro “hallo babyen”!
A partir daqui se norueguês é para mim chinês, em “bébélês” ainda menos se entende!
Mas sei que o Soren tem quase 6 anos e que adora ginger cookies e as pequenas cavacas que a mãe lhe leva de Lisboa, compradas aqui no aeroporto!

A alegria da conversa entre mãe e filho era contagiante!
Isso não precisava de tradução. Entendia-se nas exclamações, nas gargalhadas de Soren e nos sorrisos embevecidos de Emma.

A chamada durou uns 15 minutos. Quando desligou começou a arrumar tudo para se dirigir ao embarque, que já piscava no painel.
Emma despediu-se de mim com um “see you in November Susana”.
Despedi-me dela, mas reparei nas lágrimas que espreitavam nos seus olhos amêndoa.
Perguntei-lhe o que se passava. Não queria que saísse dali assim…

O Soren estava desdentado! Caiu-lhe o primeiro dente e esteve a contar à mãe que guardou o dente debaixo da almofada, embrulhado num lenço, porque a Fada dos Dentes ia deixar-lhe uma moeda em troca, amanhã de manhã.

Emma estava emocionada! Ansiosa! Entusiasmada!
Será que chegaria a tempo de ser a Fada dos Dentes do seu filho…

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 26/02/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/estorias-de-tao-longe-tao-perto-1-emma-por-susana-beirao/

UM MUNDO À PARTE DO MEU


Há histórias que nos perseguem. Episódios que para além do terramoto inicial, abalando algum equilíbrio, se revelam afinal, ao longo das nossas vidas, uma escala de Richter sem grau máximo e com réplicas intermináveis.

Tudo porque de meninas vamos para moças (um termo em desuso, mas que se refere a uma idade bem concreta) e de moças nos tornamos mulheres. E o que os ouvidos de menina ouvem, só a moça consegue entender e só a mulher consegue reflectir.

No final da década de 80, andava eu no Colégio do Sagrado Coração de Maria, com 13 anos, fomos por altura da Páscoa visitar um centro de acolhimento de raparigas adolescentes em risco. “Calhou-me” uma Raquel. Tinha 14 anos, mas parecia ter mais 10 anos que eu!
Era magra, macilenta. Tinha 14 anos e estava grávida!

Eu tentei. Eu tentei conversar com ela.
Aliás, eu acho que só pude ouvi-la. Não podia dizer-lhe fosse o que fosse, pois a cada palavra dela, eu ia percebendo que nada, do alto dos meus 13 anos privilegiados, lhe iria acrescentar algum conforto ou alguma epifania. Ela conhecia um mundo completamente à parte do meu. E eu ouvia-a. Atentamente, mas tão desorientada.

A medo e bêbeda de inocência perguntei-lhe se o pai da criança a acompanhava e se já a tinha visitado ali no Centro. A resposta dela tirou-me o pio, o fôlego e os meus alicerces:
” O pai?! Eu sei lá se estou grávida do meu pai ou do meu irmão…”

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 14/02/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/um-mundo-parte-meu-por-susana-beirao/ 

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

E DE REPENTE LEMBRAM-SE DA ABSTENÇÃO...


E de repente lembram-se da abstenção!
Apelam ao voto e até há quem se atreva a arriscar apelar ao voto útil! Como se houvesse inutilidade na escolha consciente de cada um de nós, eleitores!

E de repente lembram-se da abstenção! Que gradualmente e em 40 anos de “democracia” tem aumentado e tem sido sujeita a algumas leituras, por parte de, pelo menos, quem olha para a abstenção, sem facciosismos de resultados.

E de repente insurgem-se contra a abstenção, que em 2011 elegeu este governo, com 41,1% dos eleitores a demitirem-se de escolher.
Quatro anos depois insurgem-se e partilham “memes” que desvalorizam a vitória de quem nos (tentou) governar e gráficos que nos contam essa história de como Passos Coelho chegou a PM.

Quatro anos depois lembram-se dos 41,1% de abstencionistas, mas no entretanto ninguém se lembrou de fazer algumas perguntas sobre esse tema! Ninguém se lembrou de perguntar porque razão tanta gente se desinteressou e escolheu, não escolher!
E quatro anos depois continuam sem tentar perceber!Quatro anos depois, o que fazem é intimidar com hashtags de voto útil e culpar quem continua sem se rever nas propostas que vão a votos!
Tudo porque quatro anos depois, os 41,1% de eleitores que há quatro anos, não votaram, lhes dariam tanto jeitinho! Tivessem-se esforçado para os convencer!

Quatro anos depois preocupam-se com a abstenção, esquecendo-se que em 2013 nunca tanta gente tinha ficado em casa, em eleições autárquicas! Esquecem-se que quase metade dos eleitores - 47,4% - não se preocupou em eleger os seus autarcas!
Quatro anos depois esquecem-se que, em Lisboa, António Costa ganhou, com a ausência de 55,49% dos eleitores, nas mesas de voto!
Menos de metade dos munícipes inscritos elegeram o seu Presidente de Câmara.
Provavelmente por saberem que quem se candidatava, não iria lá ficar, nem sequer honrar esse compromisso eleitoral…

Quatro anos depois lembram-se da abstenção, chutando para canto a preocupação dos valores de abstenção nas Europeias de 2014 – 66,2% - a maior taxa de abstenção de sempre!
Quatro anos depois lembram-se da abstenção, sem nunca antes se terem interrogado, seriamente, conscientemente, tirando consequências e ilações, sobre as razões pelas quais isto acontece, nunca decrescendo, de há 40 anos para cá.
(tal como já escrevi neste blog aqui e aqui)

E apesar de eu acreditar que este ano a taxa de abstenção irá diminuir, pelo menos em relação às anteriores legislativas acredito também que é esta hipocrisia que irá continuar a afastar os eleitores das urnas!
Quatro anos depois preocupam-se com a abstenção… porque os abstencionistas lhes fazem falta!

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

OS MACHISTAS DE DIREITA



Assunção Esteves, uma transmontana de 58 anos, licenciada em Direito e mestre em Ciências Políticas.
Foi atleta de Basquetebol, desde cedo se interessou pela Política e foi casada 14 anos com um deputado socialista.
Foi Professora, Juíza conselheira do Tribunal Constitucional, Deputada, mulher de cartas na Política e tornou-se a primeira mulher a ocupar o cargo de presidente da Assembleia da República, a segunda figura do Estado Português.

Joana Marques Vidal, tem 56 anos e é a primeira mulher a liderar a Procuradoria-Geral da República, um cargo que assenta na dupla confiança do Presidente da República e do Governo e que tem categoria, tratamento e honras iguais aos do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
Especializada na área de Direitos da Família e Menores, destaca-se a participação como membro da comissão legislativa para a redação da Lei Tutelar Educativa e como membro da comissão que procedeu às últimas alterações da Legislação da Adoção.
A procuradora é também desde 2010 presidente da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima.

Paula Teixeira da Cruz, portuguesa de Angola, tem 55 anos e é Ministra da Justiça.
Licenciada em Direito e advogada desde 1992 e especialista em Direito Público, Administrativo e do Ambiente.
Foi membro do Conselho Superior da Magistratura (2003-2005), do Conselho Geral da Ordem dos Advogados (2002-2005) e do Conselho Superior do Ministério Público (1999-2003).
É membro da Direcção da Associação para o Progresso do Direito e da Abraço - Associação de Apoio a pessoas com VIH/SIDA.
Durante a sua legislatura o país tem assistido ao desenrolar de alguns casos densos e bastante mediáticos e os debates sobre a Justiça e a sua eficácia e isenção têm-se sucedido.

Maria Luís Albuquerque, a Ministra de Estado e das Finanças nasceu em Braga em 1967.
Licenciou-se em Economia e é mestre em Economia Monetária e Financeira pelo Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa.
Enquanto docente da Universidade Lusíada, foi professora de Pedro Passos Coelho e em 2013 assume, integrando o governo do seu aluno, uma das pastas mais difíceis e polémicas, duma legislatura agrilhoada a um programa de resgate.

Assunção Cristas é a Ministra da Agricultura e do Mar e nasceu em Luanda em 1974.
Foi assistente da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e prosseguiu a sua carreira como professora na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa e no Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna.
É consultora jurídica desde 2010 e foi assessora da Ministra da Justiça do XV Governo Constitucional, em 2002, assumindo a direcção do Gabinete de Política Legislativa e Planeamento, até 2005.
Licenciou-se em Direito em 1997 e em 2011 tornou-se Ministra de dois ministérios que estavam separados no anterior governo.
Em Janeiro de 2013 ao saber-se da sua gravidez tornou-se na primeira mulher em Portugal a estar grávida enquanto ministra.

Anabela Miranda Rodrigues tem 61 anos.
Licenciada com 17 valores em 1976 e Professora catedrática da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, onde foi a primeira mulher a doutorar-se, com uma tese intitulada “A determinação da medida da pena privativa de liberdade, em 1995.
Foi nomeada em Setembro de 2004 e até Setembro de 2009, diretora do Centro de Estudos Judiciários, tendo sido a primeira mulher e a primeira não-Magistrada a exercer este cargo.
É também a primeira mulher a tornar-se Ministra da Administração Interna de Portugal.

Teresa Morais, Secretária de Estado dos Assuntos Parlamentares e da Igualdade, tem 52 anos é jurista, deputada e mestre em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa.
Enquanto vice-presidente do Grupo Parlamentar do PSD, foi responsável pelo acompanhamento das matérias de direitos, liberdades e garantias e integrou as Comissões de Assuntos Constitucionais, Direitos Liberdades e Garantias, tendo exercido as funções de presidente da Sub-Comissão Parlamentar de Justiça e Assuntos Prisionais; de Defesa Nacional, tendo sido membro da Assembleia Parlamentar da NATO onde integrou a Comissão da Dimensão Civil da Segurança; e da Comissão Eventual para a Reforma do Sistema Político.
É autora de várias obras da área do Direito, entre as quais se conta uma edição do Gabinete do Ministro da República Para a Região Autónoma dos Açores (2005) sobre Violência Doméstica.

Isabel Castelo Branco é Secretária de Estado do Tesouro tem 46 anos e é licenciada em Economia, pela Universidade Nova de Lisboa.
Desde 2002 que era directora financeira do BPI e era membro do comité de riscos do banco e administradora da Companhia de Seguros de Crédito (COSEC). Antes disso esteve na gestão de activos, onde foi responsável de investimentos da BPI Fundos, da BPI Pensões e da BPI Vida. Começou a sua carreira como analista.

Berta Cabral, Secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional é natural de Ponta Delgada e licenciou-se em Finanças pelo Instituto Superior de Economia da Universidade Técnica de Lisboa em 1975.
Foi Diretora Regional do Tesouro dos Açores, em 1984 e em 1988 foi nomeada Directora Regional dos Transportes e Comunicações dos Açores.
Em 1991 foi Administradora da Empresa de Electricidade dos Açores e em 1994, assumiu a presidência do Conselho de Administração da SATA Air Açores.
Integrou o Governo Regional dos Açores com a pasta de Secretária Regional das Finanças e Administração Pública e em 2001 foi eleita Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, tendo sido reeleita em 2005.

Elina Fraga é a segunda mulher na história da Ordem dos Advogados a assumir o cargo de Bastonária e também a mais jovem de sempre, tem 43 anos.
É transmontana de Valpaços e derrotou cinco rivais, todos homens, nessa eleição.
A nova bastonária foi vice-presidente da Ordem e vogal do Conselho Geral no mandato de Marinho Pinto. Elina Fraga candidatou-se com o lema "Justiça ao serviço da cidadania, Ordem ao serviço da Advocacia".

Não me lembro de uma legislatura neste país com tantas Mulheres no Poder...
Apesar do óbvio há quem acuse este governo de machismo por sentirem ofensa na analogia que Paulo Portas faz sobre a maior capacidade de gestão doméstica por parte das mulheres e por se indignarem contra uma capa de revista cor-de-rosa que dava destaque às funções domésticas de Pedro Passos Coelho durante o seu primeiro casamento (sem comentários…)
Para quem assim pensa, os factos não contam! O que contam são as palavras que possam ficar mal na fotografia.
De facto esta direita é muito machista! Não diz coisas sobre as mulheres. Só lhes dá destaque!

quinta-feira, 30 de julho de 2015

PORQUE O PRECONCEITO NÃO SE RESERVA SEMPRE AOS MESMOS





Sou Católica, mas tenho ideologias políticas inspiradas na razão da leitura e nas acções do Homem.

Sou Católica, mas pasme-se que não casei e mesmo assim me aventuro, com gosto e sem culpa, no sexo sem fins reprodutores, usando preservativo e tomando a pílula!
Sou Católica e pasme-se que tenho bons e íntimos amigos homossexuais, sem vergonha nem estandarte (até porque resistindo aos pensamentos homicidas e de extermínio prefiro inflamá-los em pedófilos e assassinos, crápulas e escroques…)

Sou Católica e incorro em condutas que a Igreja me critica, mas pasme-se, não me angustio nem berro pela sua aprovação!

Sou Católica e pasme-se que não me confundo quando falo de aborto ou IVG.
Sou Católica e pasme-se sou Feminista, apesar de haver quem considere que as duas facetas não cabem no mesmo saco.

Sou Católica, infelizmente não vos consigo surpreender dizendo que sou de esquerda, mas não deixa de ser curioso que o primeiro protagonista e defensor das causas sociais e da consciencialização humana tenha sido Jesus, um indivíduo que diz que era muito especial e carismático, com o dom da retórica e que parece ter vivido algures no médio Oriente há 2000 anos atrás… (não liguem, que são só histórias de fadas em que esta gente acredita)
Sou Católica e pasme-se, o Papa Francisco não me surpreende pela diferença do pensamento!

Sou católica e não boicoto nem ataco a religião dos outros, porque sendo Católica entendo a dimensão espiritual de cada um.
Sou Católica e acho que o Estado devia ser efectivamente agnóstico, por respeito a todos. Por respeito aos direitos e deveres de todos, afinal porque carga de água devem os ateus, hindus, budistas ou muçulmanos celebrar os feriados Católicos?
Sou Católica e longe de mim reivindicar que outras religiões devam professar a minha verdade e os meus cultos!

Sou Católica, mas pasme-se que sei bem em que mundo vivo!

quinta-feira, 23 de julho de 2015

PAI




A minha enciclopédia rasgou-se... As minhas certezas calaram-se! As minhas tempestades, as minhas teimosias, a minha avidez, tudo congelou.

A minha mão direita foi decepada!
A minha mão direita que não largou a tua até ao final. A minha mão direita de gestos constantes de dextra, que foi esmagada nos teus últimos suspiros.

Eras a minha acção, mais firme e segura!
Sempre foste os meus membros, desde o dia em que me fazias dançar sobre os teus pés.
Nunca me deixaste de guiar. Fosse puxando-me. Fosse empurrando-me.

O meu norte escureceu, mas não me deixaste desnorteada, Pai. É com a mão direita que te escrevo. Continuas no meu rumo e sei quem queres que eu seja!

A minha mão direita na tua, sempre!

segunda-feira, 18 de maio de 2015

VELHOS SÃO OS TRAPOS!



Uma senhora pára numa bomba de gasolina self-service, com pagamento por cartão MB. Sai do carro e demora alguns minutos para entender o sistema que com certeza nunca utilizou antes. Afogueado, um jovem dos seus 30 anos sai do seu carro dirige-se à senhora, com maus modos, achando-se, com certeza, imprescindível neste universo e pergunta-lhe se vai demorar muito; se se decide ou não a pôr gasolina?!
Perante isto a vontade que tenho é de lhe pregar duas chapadas e dizer-lhe que, aproveitando que ali está ajude a senhora. Duma assentada fazia alguma coisa de útil e bem feito e despachava a senhora e despachava-se a si próprio, que pelos vistos tem muita pressa de chegar aos atalhos da vida que só ele sabe que o vão desviar do mesmo destino: precisar um dia, que o ajudem!

Um vídeo circula nas redes sociais, mostrando um policia – que em nada honra a sua farda – a agredir um adepto de futebol, duma forma despropositada e violenta, em frente aos filhos, aterrorizados com a cena!
Os ânimos exaltam-se, as opiniões gritam-se, as consequências exigem-se! Todos de atenção voltada para a criança e o seu trauma!
O presidente do clube em causa convida publicamente a criança, para receber a Taça no relvado. Em jeito de compensação!
Ninguém se insurge com o que vi (e mentalmente revejo); o avô da criança levou dois socos à má fila! Parece que ninguém se choca com a violência daqueles dois socos desferidos na cara dum velho!

Um homem de 50 e poucos anos, desempregado e desesperado entra no aeroporto com o seu Curriculum impresso, para distribuir nas lojas e empresas que ali funcionam.
Um homem de olhar esgotado! Um homem com formação técnica e 40 anos de trabalho às costas! Às costas carrega também a sua família, o desespero de não se sustentar e o horizonte de mais 20 ou 30 anos de capacidade e contributo, que a sociedade prefere desperdiçar!

Em dois dias três episódios diferentes ilustram bem a mentalidade vigente contra os mais velhos, neste país!
Em dois dias resumo-me a um silêncio estupidamente pesado e triste!
Em dois dias convivo com um nó na garganta, um nó no estômago, uma angústia que me abala a esperança!
Que merda de mundo é este que chuta para canto os nossos pais? Que apaga da vida os nossos avós?
Que merda de mundo é este que prefere que a vida dos nossos ascendentes, que nos abrem as portas e que nos carregam ao colo seja muda e se evapore?
Com quem, afinal pretende o mundo aprender? Com egos infantis e inflamados? Com gente deslumbrada com a sua idade adulta ou arrogante na sua ilusão de poder?

Não gosto de pessoas armadas em Titanics, achando que atravessam a vida sem se afundar!
Não gosto de gente que não trata das gentes!
Nunca gostei de quem se leva demasiado a sério!
Muito menos duma sociedade inteira, que se tenha nessa conta...

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Revista SÁBADO de 14 de Maio de 2015






Não sou jornalista, nem trabalho em nenhum meandro da comunicação social. Só estudei Ciência Política pela paixão que tenho por esta dimensão social.

Talvez por tudo isto, com enorme incredulidade, me surpreenda tanto com a reportagem da Sábado sobre os modos e a relação de Sócrates com a Com.Social.

Talvez seja eu imberbe em relação a este meandros, que não quero nem posso admitir que assim aconteçam num contexto de Democracia(?).

Não, isto é tudo, menos uma Democracia! E aqui aponto também o dedo aos jornalistas que, com cobardia, se tenham calado, de todas as vezes que algum arrogante com aspirações divinas e ambições ditatoriais lhes tenha, por qualquer meio, ameaçado, ou tentado limitar e manipular o seu trabalho.

Muito me admira que um dos membros do partido estandarte da liberdade de expressão e do Charlie, tanto tenha incorrido, incólume, nestes comportamentos! Como sempre lhes ouvi dizer, a via judicial é a defesa da integridade, nestes casos.

Estou pasma (achando que já não era possivel) e apelo à comunidade psiquiátrica que estudem a fundo esta personalidade!

(nota) poucas são as vezes em que não falo de Democracia neste blogue; é cada vez mais urgente começar a discutir os Deveres e as Responsabilidades em Democracia. 40 anos só a discutir Direitos têm vindo a enublar todo o conceito! A impunidade está aqui,, nesta questão.

domingo, 19 de abril de 2015

19 de Abril de 2015


Olá Rute. Nunca falámos dos 40. Dos 40 anos que farias hoje...
Não chegaste sequer àquele dia em que falaríamos sobre um futuro mais próximo.

Viemos juntas desde os 13 anos, carpindo a adolescência e conquistando a vintena.
Partilhámos a liberdade e as alegrias de todas as primeiras vezes, de tudo o que aqueles primeiros anos de adultas nos proporcionaram! Aqueles anos em que nos fomos adivinhando umas às outras, na cumplicidade do que queríamos ser! Aqueles anos bem próximos do salto que demos sobre tudo o que sabíamos que não nos ia mais separar!
Entrámos nos 30 com essa certeza! Com a convicção dos caminhos que escolhíamos a cada decisão tomada, sempre a 3! Nem sempre ponderadas, mas sempre apoiadas pela diferença que cada uma de nós aportava à união. Numa irmandade que a vida nos ofereceu para lá da nossa família!
Entrámos nos 30 com sangue na guelra! Cravadas umas nas outras com a certeza, mais do que absoluta, de que a nossa amizade era um escudo inabalável!
E no alto dos 30 – aquele degrau que não sabíamos que para ti era o último – permitimo-nos a imaginar com graça uma velhice a 3, que incluía cabelos brancos arroxeados, batom nos dentes (quando não nos esquecíamos da placa), voz rouca e barbitúrica, carrapitos, cigarrilhas, refrescos de whisky, bengalas com cabo de prata e chá na Mexicana!

Ali, entrando nos 30 e celebrando a conquista de quem afinal já éramos, não falámos dos 40. Estavam mais longe que os 80 que podíamos parodiar.
Ali. entrando nos 30, o que contava eram os planos que fazíamos para cada dia. Os planos que serviam a um presente que achávamos maior que tudo! Um presente que sabíamos ser um trampolim, para o que sabíamos que queríamos ser! Porque sabíamos que amanhã seria garantido pela nossa maestria!

Rute, a nossa amizade era um escudo inabalável, mas aqueles "amanhãs" vieram gorados!
Precipitaram-se no que queríamos que crescesse mais devagar! Empurraram-nos para o que não queríamos reconhecer, de voltas trocadas, de caminhadas coxas, de páginas arrancadas a um livro que só agora, talvez consiga voltar a escrever…
Anos turvos e desorientados! Sem pé! Que se sucedem, aos solavancos!

Farias 40 anos hoje, Rute! Nunca falámos sobre isso...

terça-feira, 17 de março de 2015

A DIFERENÇA É QUE EU NÃO VOU DEIXAR DE TE OUVIR, ELTON...




Finalmente a resposta!
http://news.yahoo.com/italian-designer-duo-slam-elton-john-ivf-babies-153211028.html

Uma coisa é emitir uma opinião. Outra é interferir na vida de alguém!
E neste caso quem interferiu foi Elton John e não a dupla.
A dupla emitiu a sua opinião (porque lhes perguntaram) sobre Fertilização Assistida e sobre familias gay. Sendo gays.

Acho altamente preconceituoso considerar que todos os gays são iguais, como se formassem uma tribo de opiniões e vivências iguais. Como se não fossem pessoas iguais a todas as outras, na sua individualidade!

Parece que há um lápis azul na liberdade de expressão.
Um lápis que insiste em riscar tudo o que não seja conveniente ao discurso regente dos temas que afinal se entendem por fracturantes neste início do século XXI.
E não falo de tinta correctora sobre abuso ou ofensa!
Falo da censura e da indignação em relação ao que afinal são só opiniões e formas diferentes de pensar.

Considero que o papel do Estado é de facto legislar e salvaguardar os direitos de todos; e que nessa peça todos devíamos muitas vezes intervir através dos vários recursos que a Democracia nos oferece.
Aliás, para alguma coisa deve efectivamente servir o batalhão de deputados que elegemos para aquela Assembleia.
E assim é! Volta e meia discutem-se projectos lei e volta e meia aprovam-se novas medidas e volta e meia cozinham-se alguns referendos e circulam alguns abaixo assinados e se formam alguns movimentos…

Mas volta e meia também surgem perguntas feitas a gente que até tem algum protagonismo. E volta e meia também, perante essas perguntas, surgem respostas. Repostas essas que emitem uma opinião. Pessoal. Própria.

O simples facto de legislar direitos, não é uma ditadura de mentalidades, de escolhas ou de condutas.
Se assim vivêssemos, nessa permissa, de nada nos serviria legislar direitos!
Legislaríamos deveres. Ponto.
Não nos podemos iludir com essa ideia de que um direito legislado pauta a mesma velocidade nas opiniões.
E eu atrevo-me até a dizer que, em muitos casos, não podemos exigir que assim seja!
Afinal é de Liberdade que se trata, quando se defendem direitos.
Uma opinião contrária à nossa, não pode gerar esta atitude autoritária e intolerante de boicote e achicalhamento!

Emitir uma opinião é uma coisa. Interferir na vida de alguém é outra.
E neste caso quem interferiu, apesar de muitos acharem o contrário foi Elton John. E não a dupla Dolce Gabanna.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

MATOU-SE...

Volta e meia paira no ar um mistério sobre uma das poucas certezas desta vida: a Morte.

Um mistério que mascara os factos. Uma intriga que contorna o desfecho. 
Um ponto de interrogação que só se pronuncia em surdina. A medo. Com pudor de saber o que aconteceu.

Quando alguém se mata, todos se calam!
Entendo o choque. Pesa-me a tristeza. Mas vergonha?

O suicídio é o fim abrupto escolhido por alguém, mas é o desfecho duma doença!
Tal como a morte, como desfecho duma pneumonia filha da mãe, que derrapou sem solução num corpo frágil!
O suícidio é o nome que se dá a uma morte repentina! Tal como acidente de viação, aneurisma ou queda aparatosa duma ravina!

Alega-se respeito por não se repetir esta palavra… 
Respeito por quem? Por quem se matou? 
A vida das pessoas define-se pela forma como vivem e não como morrem! 
Quem se mata merece-nos acima de tudo o respeito de entender! 
Que reconheçamos e denunciemos o seu sofrimento!
Respeito por quem? Pela família? 
A família fica atónita! Fica dormente! Presa a quem perdeu. Caída pela rasteira que quem morreu, lhes pregou!
A família o que mais quer com certeza é que não esqueçam quem se foi! 
E o que mais quer com certeza é que não julguem quem se matou, pelo silêncio que se impõe à volta duma palavra! 
A família não quererá com certeza sentir a vergonha que esse “shiiiu” grita!

A minha vergonha fica para a sociedade que baixa os olhos e fala baixinho sobre tudo isto!
Não entendo! Não entendo as “desconversas” sobre a morte.
Os sussurros sobre quem morre e a semântica da morte. “Doença prolongada”?! Nem de Cancro conseguimos falar!
Doença prolongada é o Sofrimento de quem se mata, que achamos homenagear quando nos calamos!
Já dizia Mário de Sá Carneiro “ Quando eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes…” que é como quem diz à moda informal e de concerto no século XXI, “façam barulho”!

Não se esqueçam que quando nos calamos assim, apontamos o dedo acusatório a quem já se sente isolado, ainda vivo, pensando em morte!

domingo, 25 de janeiro de 2015

O DEBATE DA ADOPÇÃO POR CASAIS DO MESMO SEXO



Primeiro que tudo considero esta proposta uma evolução, inevitável, como todas são, tanto do ponto de vista social, quanto do ponto de vista legal, visto que ao se ter aprovado o Casamento entre homossexuais, inscrevendo na Constituição que “Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código” se inscreve desta forma o direito implícito de todas as pessoas constituírem família.

Posto isto há porém alguns contornos desta discussão que não posso deixar de denunciar e refutar.
Não se pode assumir que esta medida pretende na sua máxima prioridade defender o direito supremo das crianças. Esta medida será aprovada, acima de tudo, na defesa dos direitos dos homossexuais. É isso que esta medida pretende - incluir o direito de acesso de candidaturas de casais homossexuais a adoptantes.
Até na própria denominação da proposta parece haver uma manobra semântica. Porquê chamar “Adopção entre pessoas do mesmo sexo”? Falamos de tios? Primas? Amigos? Amigas? Não. Falamos de homossexuais, assumidos e unidos. Qual é o problema do termo?
Assim sendo, não posso corroborar a mensagem que se tem transmitido, de que esta lei seja a “salvação” para tantas crianças institucionalizadas.
Querer passar a mensagem de que esta questão seria a solução para mil e um problemas, que ainda existem no seio do sistema nacional de adopção é uma falácia e é faccioso!
Anualmente e a nível nacional há, em média, 500 crianças aptas para adopção e 2000 candidaturas de adoptantes. Que posteriormente se traduzem, também em termos médios de 70 a 90 adopções plenas. Ou seja, não faltam candidatos, vontade e amor! Faltam sim, condições, celeridade, reformas e medidas, que a meu ver são ainda mais urgentes de debater a fim de incluir então, todos neste processo.
No entanto, não me lembro, infelizmente, de debates, medidas e propostas de reforma sobre a Adopção, as Instituições e a Comissão de Proteccção de menores, em Portugal…

Quanto à questão da hipocrisia, que tanto se brada é um disparate acusar alguém que vote em consciência com os seus princípios e valores, de hipócrita (apenas por não se concordar)!
Além disso é absurdo e extremamente ofensivo falar de homossexuais que votam contra ou se abstêm, apontando-lhes o dedo como hipócritas ou encapuzados.
Que eu saiba ser homossexual, não é fazer parte duma “tribo” que se rege obrigatoriamente pelos mesmos costumes e regras.
A acusação e a ofensa sobre estas pessoas é igualmente preconceituosa e discriminatória.
Encaro um homossexual como uma pessoa igual a todas as outras, que independentemente das suas escolhas, das suas opções ou do seu modo de vida encerra em si mesma uma personalidade própria e diferente de tantas outras. Personalidade essa que lhe permite, com toda a legitimidade uma miríade de opiniões.
Não consigo aceitar uma “obrigação” latente e implícita de assumir seja o que for, ainda para mais quando diz respeito à vida privada de cada um!
Nem todos os homossexuais querem casar ou adoptar e nem todos os homossexuais têm a mesmíssima educação, valores ou condutas.
Ou seja, a cada pessoa reconheço a liberdade de viver a sua vida como bem entende (contando que não prejudica ninguém) e sem ter de assumir publicamente seja o que for!
Esta liberdade, sem distinção é a mesma que defendo para quem escolhe assumir-se.

Nota 1: as médias que enuncio são baseadas na pesquisa pessoal, sobre os números oficiais da Adopção em Portugal desde 2010.
Nota 2: este texto NÃO está escrito ao abrigo do Acordo Ortográfico.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

BEM VINDO SEJA QUEM VIER POR BEM



Europa? E agora?
Agora, “mija na mão e deita fora” como diziam os putos da minha infância!
O que hoje aconteceu em Paris está carregadinho de ironia! E dor e medo e perigo…e desafios!

Tudo indica que os “executantes” eram franceses! Ooops, “la vache”…
E lembrei-me de Bin Laden há quase 10 anos atrás, sossegando os seus seguidores extremistas “Não se preocupem com a Europa! Essa já está conquistada”!

Pois é… Porque a Europa da tolerância e do multi-culturalismo e da liberdade abriu os braços a tudo e a todos, virando costas à integração e fechando os olhos à realidade e às suas expressões!
Em Maio do ano passado os resultados políticos da extrema direita deviam ter sido um alarme! E foram! Um alarme sonoro nas bocas de quem preferiu reduzir esta expressão apenas a maus fígados e más intenções antiquadas de fascismo e nazismo.
Preferiram calar estes resultados porque é feio. Porque “parece mal” discutir afinal a expressão de gente que é “só” má e racista e intolerante.
E manteve-se a mesma postura, que chamamos de solidariedade e respeito, porque “parece mal” agir de outra forma e por isso nem pensar em discutir o que se passa…

E o que se passa há muito tempo é isto! Uma realidade opressora e intolerante na Europa, pelas mãos daqueles que dizem representar o profeta daqueles a quem construímos mesquitas e permitimos o uso da hijab... mas que a nós não nos permitem uma piada que seja!

Soa mal tudo o que escrevo? Soa! Tem soado!
Porque de cada vez que alguém aponta o dedo, há logo outro que se levanta para intervir sob a égide da tolerância e do respeito, abafando e denegrindo as intenções de quem afinal só quer lembrar que a forma como temos (Europa) agido com os imigrantes e as comunidades tem permitido, também, a expressão deste extremismo!

É esta a Europa que se diz livre, mas vive desorientada e assustada, refém dos valores da “Liberté, Égalité, Fraternité” a reboque da opinião publicada que parece que só acorda e se arrisca a escrever um “se calhar, vai na volta, algo se passa por aqui…” quando se matam à queima roupa uns quantos jornalistas, seus colegas!

É por isso que hoje sou obrigada a lembrar-me do velhinho azulejo da hospitalidade “Bem vindo seja quem vier por bem”, porque sinceramente quem vier por mal, por mim pode ir andando para os confins do raio que o parta, porque entre a morte e a ofensa há que ferir susceptibilidades, convenhamos…