Um blogue com sintomas de vontade parva de escrever sobre tudo, ou sobre nada. Se o Seinfeld fez uma série nessa permissa eu também posso ter um blogue aí assente, ou não? Um blogue com sintomas de opinião e um prognóstico reservado à liberdade de expressão. Tudo com mais (ou menos, se me apetecer) caracteres do que aqueles que o Twitter me permite e tudo em sede própria, porque o Facebook às vezes cansa-se de mim.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
ESTÓRIAS DE TÃO LONGE TÃO PERTO – EMMA
Roubei descaradamente parte do título a Wim Wenders, para vos contar pequenas estórias de quem vem de longe e nos aproxima das suas vidas, por algumas horas, aqui no aeroporto, por onde passam, pontualmente ou por rotina.
Não era a primeira vez que Emma vinha ter comigo aqui ao Lounge.
Acho que vem a Lisboa pelo menos uma vez por mês e regressa a Oslo sempre ao final do dia, às 5ª feiras.
A figura é sempre a mesma. A mala de rodinhas, o blazer azul-escuro, o sorriso cansado, a passada apressada, osmartphone entalado entre a orelha e o ombro, a madeixa ruiva sobre a testa, arranhando-lhe as pestanas.
E a conversa entre nós duas só com o olhar, dizendo “olá” e um “espera só um bocadinho, que tenho de despachar este chato aqui ao telefone”.
Tudo isto sabe Deus em que língua, mentalmente, porque nem eu sei falar norueguês, nem ela sabe falar português!
Mas entendemo-nos naqueles 2 ou 3 minutos da sua chegada.
Pouco mais conversamos. Até porque ela só quer descansar! Apagar mais uma semana de trabalho.
Passa pelas brasas até às 18.30. Só tem voo por volta das 20.00.
Quando desperta procura as horas em todos os relógios que tem à volta.
No telemóvel, no computador, no painel de informações de voo e na minha resposta.
“Susana is it almost 19.00?”. “Yes, it is” confirmo-lhe.
Volta ao ecrã do seu tablet. Em Oslo são quase 20.00.
Oiço o sinal de chamada de Skype e um sonoro “hallo babyen”!
A partir daqui se norueguês é para mim chinês, em “bébélês” ainda menos se entende!
Mas sei que o Soren tem quase 6 anos e que adora ginger cookies e as pequenas cavacas que a mãe lhe leva de Lisboa, compradas aqui no aeroporto!
A alegria da conversa entre mãe e filho era contagiante!
Isso não precisava de tradução. Entendia-se nas exclamações, nas gargalhadas de Soren e nos sorrisos embevecidos de Emma.
A chamada durou uns 15 minutos. Quando desligou começou a arrumar tudo para se dirigir ao embarque, que já piscava no painel.
Emma despediu-se de mim com um “see you in November Susana”.
Despedi-me dela, mas reparei nas lágrimas que espreitavam nos seus olhos amêndoa.
Perguntei-lhe o que se passava. Não queria que saísse dali assim…
O Soren estava desdentado! Caiu-lhe o primeiro dente e esteve a contar à mãe que guardou o dente debaixo da almofada, embrulhado num lenço, porque a Fada dos Dentes ia deixar-lhe uma moeda em troca, amanhã de manhã.
Emma estava emocionada! Ansiosa! Entusiasmada!
Será que chegaria a tempo de ser a Fada dos Dentes do seu filho…
(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 26/02/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/estorias-de-tao-longe-tao-perto-1-emma-por-susana-beirao/
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