segunda-feira, 2 de novembro de 2015

ESTÓRIAS DE TÃO LONGE TÃO PERTO – 3 GESTOS


Roubei descaradamente parte do título a Wim Wenders, para vos contar pequenas estórias de quem vem de longe e nos aproxima das suas vidas, por algumas horas, aqui no aeroporto, por onde passam, pontualmente ou por rotina.

Entrou no Lounge com pressa, já ao final do dia.
Mesmo assim vinha meticulosamente arranjada, como se tivesse acabado de sair da frente do espelho! O cabelo liso e solto, as unhas perfeitas, as calças pretas da melhor fazenda e corte, a blusa de seda cor-de-rosa, suave, elegante, fluida.

Vinha, com urgência, imprimir o talão de embarque.
Vinha com urgência, sim. Desde o primeiro segundo que notei que vinha com urgência. Uma urgência estranha, que não era só pressa.
Tinha um sotaque vincado do Porto. Era para lá que voltava.
Estava ali parada à minha frente de óculos escuros. Parada, mas irrequieta.
A cabeça sempre baixa e o olhar sempre de soslaio, por de trás dos óculos.
Parecia vergonha. Mas ela não me parecia tímida!
Parecia medo. Mas ela parecia-me tão destemida, quando entrou!

Enquanto esperava, suspirava.
Senti os olhos dela cravados nos meus ombros.
Senti os olhos dela à boleia dos meu movimentos.
Mas de cada vez que olhei para trás, ela tinha a cabeça enterrada nas mãos e os dedos, como pentes, presos entre os cabelos.

Perguntou-me se podia ir à casa de banho. Indiquei-lhe onde era.
Demorou-se, ao ponto de eu me preocupar.
Reparei na sua mala. Ia cheia. Cheia demais.
O fecho denunciava algum esforço; um fecho éclair em tensão.
Será que rebentava antes de chegar ao Porto?
Ela voltou. Guardou uma bolsa na carteira e veio ter comigo novamente.
Pegou no talão de embarque e antes de me agradecer tirou os óculos escuros e arregaçou as mangas.
As suas mãos, hidratadas, de unhas cor de vinho, sem cutículas, afagaram veementemente o próprio rosto, exageradamente maquilhado. Como quem tira uma máscara.

Nestes 3 gestos tudo se transformou!
As mangas caídas até ao cotovelo despiram vários arranhões!
A base e o corrector que a palma da mão limpou cobriam 2 hematomas num olho e na maçã do rosto.

Com estes 3 gestos, à minha frente entendi a urgência que ela trazia.
Antes de me virar as costas ainda consegui balbuciar “está tudo bem?”
Fitou-me e respondeu: “vai ficar.”

(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 18/04/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/estorias-de-tao-longe-tao-perto-3-gestos-por-susana-beirao/

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