terça-feira, 29 de abril de 2014

YOLO


Olá vidinha.
Queria-te dizer que não te vou deixar para amanhã.
Não tanto nos grandes feitos, mas sim nos pequenos detalhes.
Já não me enganas, não te iludas.
Não te quero superar, não te quero ultrapassar e sei que não te vou trocar as voltas.
Mas vou-te ludibriar.

És tão egoísta! Morra quem morra, não páras um segundo que seja!
Tu e as tuas curvas apertadas…Vê se entendes que há momentos em que precisamos de travar a fundo!
Não te importas pois não?
És toda dengosa, tão atenciosa nos presentes que nos dás.
Toma lá mais um dia. Toma lá uma amiga. Toma lá uma paixão ou um amor desmedido! Toma lá um filho. Toma lá o mundo...
Tudo envenenado! A tua prepotência não nos escreve um bilhetinho que seja “tem cuidado que um dia posso acordar mal disposta e tiro-te isto tudo!”
Escreves… até escreves. Mas tal como uma linha de crédito esses avisos estão nas letrinhas pequeninas do contrato, que ninguém lê!
Preferes estar escondida não sei bem onde e qual voyeur espiar-nos a todos, muito contentinhos com as tuas lembranças. Tarada!
Tu e o Tempo fazem parte duma conspiração! Tratam-nos como crianças! Dão-nos uma caixa de chocolates que o Tempo nos rouba antes de desembrulharmos sequer!
E tu Vida és duma indiferença, cruel! Até me posso atirar para o chão numa birra ranhosa que te é indiferente! Viras costas porque tens mais que fazer! "Chora para aí que eu tenho de ir enganar outros meninos!"
Já agora diz ao Tempo que ele a mim também já não me engana com a história de que cura tudo!
Podes dizer-lhe, sem medos, que ele para mim não passa dum Bepanthene! Só cicatriza!

Muito bem. São estas as regras do jogo?
Então fica sabendo que vou fazer batota!
Vou-te gozar como me der na real gana! Não me vais apressar, nem me vais pressionar!
Se te quiser saborear à minha maneira farei! Vou tapar os ouvidos aquilo que me ditas!
Assim pelo menos, no dia em que me pregares uma rasteira, no dia em que amues comigo, não terás o gostinho de me dizer "Eu avisei-te! Devias ter feito assim ou assado..."
Não! Ficas sabendo que vou tirar alcance de rede ao tempo e que assim nunca mais ele me vai poder ligar dizendo que já perdi esta ou aquela oportunidade!

Não sossegas pois não?
Eu que me oriente nos caminhos que me escondes e nos trilhos que me ceifas, não é?
Muito bem! Fica sabendo então que ao mesmo tempo que te escrevo, aquele miúdo que não é meu filho acabou de me enviar um desenho que me encheu de orgulho tal qual uma mãe!

Bem feita! Eu disse que te ia ludibriar! 

quarta-feira, 9 de abril de 2014

O "NÃO" DA VIDA


Infelizmente a vida tem me tornado manifestamente cínica e anisosamente acutilante.
Longe de mim fazer uma apologia da tristeza, mas o facto é que me intriga cada vez mais o desespero com que a maior parte das pessoas nega o negativo.

Provoca-me, esta jovem adulta educação assente na felicidade adquirida e no sonho americanizado do “podes tudo” e na crença teimosamente convicta de que valemos muito e vamos lá chegar! Sabe-se lá onde! Todos!
Provoca-me no sentido em que me faz reagir, mal, às frases feitas e aos clichês que a maior parte toma como apoio e incentivo, nas piores horas.
Provoca-me no sentido em que nos tolda a capacidade de lidar com as contrariedades e as vicissitudes da vida. Com a realidade basicamente. Porque se há na vida alguma surpresa, algum lucro, alguma aspiração, e não um facto, essa sim, será a tal Felicidade.
Os factos da vida são na sua essência negativos. A morte certa ao nascer. A dor ao crescer. A perda ao continuar…
Mascarar ou negar a co-existência com isto é só dificultar-nos a vida! O que é fatidicamente certo na vida, passa a ser ainda mais difícil de encarar.

Se há postalinhos que te aconselham a rir a bandeiras despregadas, também os devia haver aconselhando-te a chorar desalmadamente!
É uma manifestação do que sentes. E tem que se manifestar.
Só através do alívio de teres chorado é que recuperas algum conforto.
Acredito que só chorando é que drenamos a tristeza.
Acredito que só chorando é que aguentamos a dor.
Acredito que só chorando é que quase secamos a saudade.

Não podemos continuar a contrariar certas emoções, só porque se convencionou que a vida é uma alegria parva de manhã à noite! Não, não é!
E a alegria da vida reside exactamente em todas estas manifestações. Acredito que só através de todas elas é que nos equilibramos.

Repito que não quero fazer nenhum apologia da tristeza…
Quero apenas acreditar que só através da vivência da tristeza conseguimos a gratidão necessária à felicidade.
Quero apenas contrariar o corriqueiro e afirmar que desistir é uma opção.
Uma opção que implica coragem; e que essa coragem aponta outro caminho possível, ao desistir do anterior.
Quero apenas contrariar o corriqueiro e dar o ombro num velório, sem palavras de apoio ou motivação, sem o habitual “muita força” ou “tens de sorrir, que ele não te queria ver triste”.
Não há força que aguente certos desgostos, a não ser a força do curso natural dos nossos instintos e esses dizem-nos muitas vezes, naqueles momentos, para chorar, para nos calarmos, para nos isolarmos, para perdermos o pio e sentir apenas o choque. Por alguma razão é. Obedeçam! Cedam!

A única coisa que devemos (estou cada vez mais convencida disso) é que temos de ser permeáveis a todas as energias desta vida e devemos manifestá-las no seu momento. No seu processo.
Porque o tempo não cura! Só cicatriza…
Que o faça bem!

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A VONTADE E A NECESSIDADE


A minha curta existência e a minha toldada percepção ultimamente têm sublinhado uma diferença curiosa.
Parece que a Vontade e a Necessidade têm géneros definidos apesar de gramaticalmente serem femininos.
Parece que a mulher cai sempre em tentação e o homem conjuga o verbo querer.

Ela tem vontade de comer um quadradinho de chocolate. Ele precisa mesmo de beber uma imperial com os amigos!
Ela cede ao capricho de mais um par de sapatos. Ele precisa mesmo dum par de boxers.
Ela anda com vontade de fazer umas madeixas. Ele precisa de cortar o cabelo.
Ela agora anda numa de Yoga. Ele precisa de jogar à bola para aliviar o stress!
Ela gosta de se demorar no banho. Ele precisa do seu espaço!
Agora deu-lhe para fazer serão no escritório. Ele precisa de entregar o relatório.
Ela tem vontade de progredir na carreira. Ele precisa de chegar a partner.
Ela gostava de ir aos Açores. Ele precisa de férias!
Ela tem vontade de ir ver uma exposição. Ele precisa de ir à Moto Show.
Ela tem vontade de jogar snooker. Ele precisa de dar uma coça ao Vitor que lhe ganhou dois jogos a semana passada.
Ela tem vontade de ter filhos. Ele precisa de procriar.
A mulher também tem as suas vontades… Ele precisa de sexo.
Ela tem vontade dele. Ele precisa dela.

(nota: este blog NÃO é escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico...)