quarta-feira, 26 de março de 2014

A PROPÓSITO DE NADA


E eis senão quando o medo se instala outra vez…
Coisa estranha esta de querer sofrer ou exultar. Esta dependência de tristeza para poder sangrar, como dizia Hemingway. Ou esta obrigação de felicidade para poder criar.
Pior ainda é quando tudo se concentra e não purga!
Ao que já custa acrescenta-se a incapacidade de traduzir e com dor enfrenta-se um silêncio que não se consegue quebrar por não haver palavras para o descrever.

E enquanto sinto sento-me e tento.
Dantes era só o peso da caneta na mão, quieta! Agora a aflição é maior porque a porcaria do cursor do Word não pára de piscar numa imensidão de branco vazio!
E pisca, à espera. Como quem espera com impaciência. E pisca, mal eu hesito depois de apagar, ou mal eu paro, para retomar.
E este é o medo que se instala! Não é pela falta de palavras, mas sim pela falta de sinapses entre elas!
Cada emoção tem um nome, mas nem todas têm adjectivos! Cada uma se sente, mas nem todas têm uma história.
O drama é este novelo entre sentir intensamente esperando que acalme, sabendo que para acalmar (des)escrever me ajuda…

Não baixo os braços! Não sou capaz de te deixar em branco, Folha.
Se não sei como contar o que sinto tanto, enfrento-te de outra forma, Confusão.
Denuncio-te. Falo de ti!

sexta-feira, 21 de março de 2014

DIZ QUE HOJE É O DIA MUNDIAL DA POESIA...


(catarse)

Tenho a força de quem fraqueja
e a certeza de quem se perde.
Que por um minuto que seja
não seja este medo que eu herde.

Se sou o meu sul e o meu norte
e que me levo e me trago sozinha
sou a minha própria sorte
e tenho a sorte de ser minha.

Mas que possa assim revolta guiar-me nos teus gestos
e que me possa carregar com o alívio de me quereres.
Que me bastem os teus olhos em mim quietos,
que me traduzam só o sim e os prazeres.





quarta-feira, 19 de março de 2014

PAI (A DIAS)


Na óptica da homenagem a uma condição que deve ser celebrada e respeitada , o Dia do Pai ultimamente lembra-me sempre a situação desesperante que muitos Pais que conheço vivem em relação aos seus filhos.

A verdade é que a sociedade em que vivemos tem exigido ao Pai uma série de mudanças, na sua condição antiga de “provedor”.
A vida em família tem exigido ao Pai a participação e a partilha duma série de tarefas, em relação à criança, que até há bem pouco tempo eram esperadas apenas da mãe.
A emancipação da mulher, a Mãe criou no seio familiar um espaço que teve inevitavelmente de ser ocupado e compensado pelo homem, o Pai.
 A lei evoluiu ao ponto de um casal dividir a própria licença de Maternidade/Paternidade e há cada vez mais Pais a escolherem esta possibilidade de ficar mais tempo em casa com o recém nascido, permitindo até que a mulher que queira volte mais cedo ao trabalho.
Escolher não amamentar permite que um ou outro se coordene com os biberons.
O Pai de hoje muda a fralda, dá banho, adormece, leva às vacinas, leva ao médico, leva ao colo, leva no carrinho, dá-lhe a papa, dá-lhe a sopa, dá-lhe a mão, canta-lhe, mima, embala…

(Pausa!) nada do que digo acima é uma crítica! O que estou a enumerar são meras constatações. Tudo para chegar onde quero…

Ao Pai hoje exige-se tudo! Prover, sustentar, criar, educar, cuidar, brincar…
E nas famílias o que hoje mais acontece são as separações e aqui é-me inevitável apontar o dedo ao que acho ser uma injustiça: ao Pai de hoje ainda poucos são os direitos que se atribuem num divórcio, em relação aos seus filhos.
Aqui pouco mudou!  A Lei continua a assentar no “obviamente que o melhor para a criança é a mãe”.
Não refuto linear ou totalmente, mas custa-me assistir à tristeza de tantos Pais, que cumpriram o seu papel com gosto, vontade e orgulho e de repente têm na mão uma tabela que lhes permite estar com os seus filhos a cada dois fins de semana, ou durante um jantar às quartas  feiras…
Não é justo que um Pai de repente passe a ter 8 dias num mês para condensar tudo: a brincadeira, a sopa, a fruta, o livro, a bicicleta, a bola, o puxão de orelhas, o arranhão, o bepanthéne, a natação, o estudo do meio, aqueles ténis, o Tobias para dormir, o colo, a mão…

Ao Pai exigimos tudo! Até que ele cumpra o seu papel de Pai, nos dias e horários estipulados.
E não interessa que ao Pai ou à criança lhes aconteça o imprevisível…serão Pai e filho(a) às quartas, aos sábados e aos domingos, de 15 em 15 dias.

É a estes, a estes Pais que dedico o Dia.

sexta-feira, 14 de março de 2014

PORTUGAL: LUTO, SUBSTANTIVO E NÃO O VERBO


Crise é um palavra dita há muitos anos com uma familiaridade leviana!

Agora que a "bomba" rebentou o que mais me entristece, o que mais me revolta já nem é a classe politica!
O que mais me revolta e o que mais me entristece é a mentalidade fatal de quem tem decidido em democracia...nós!!
De quem é a famosa culpa? É nossa! Temos praticado uma democracia onde o voto representa um castigo "politiqueiro" e partidário!
Não pensámos nem agimos "em Português" ou por Portugal!
Sempre que ao longo destes últimos 40 anos alguém se atrevia a dizer uma ou outra verdade, chamando a atenção para as consequências...o que é que fizemos?
Assobiámos, olhámos para o umbigo, para o hoje e só amanhã, vá! Optámos sempre pelo "desenrascanço" pela esperteza saloia, pelo escárnio...
Foram 40 anos de cultura de encosto, de bebedeira colectiva, de deslumbramento, sob a alçada "dos direitos”! São legítimos e felizmente foram conquistados na devida altura! Mas este país embrulhou-se numa mentalidade "cigana" assustadora! Exigimos todos os direitos e repudiámos todos os deveres!
O dever em Portugal tem sido um constante reflexo da inveja e da ignorância! Não se cultivou o mérito! Não se premiou a iniciativa! Não se assumiram responsabilidades, não se enfrentaram consequências, não se exigiram satisfações nem rigor na gestão do erário público!
Não…quem pôde roubou, quem pôde calou e assim se ensinou o povo a cantar o fado, a pedir esmola, a choramingar e a resignar-se!

Revolta-me e entristece-me que nos tenhamos arrastado até aqui, num conluio de ping pong "politiqueiro", reconhecendo valor e carisma a figurinhas "Scroogianas" avarentas e pequeninas que desprezam totalmente a sua própria extensão numa inconsequência espertinha e imediata, de bolso! Figurinhas que me enojam pelo genocídio duma alma, que têm perpetuado ao longo dos últimos anos...
E nós, de plateia a assistir! Sorridentemente refugiados em créditos e gadgets e carros e férias no Brasil e apartamentos com lareira... Claro. Foi isso que nos ensinaram.
Como?!? Só me pergunto com angústia. Como é que um país de Sol, de litoral, de terra fértil, de inteligência, de ambição e conquista, de solidariedade e valores, de identidade e de carisma se deixou deslumbrar e abandalhar desta maneira?!?
E finalmente, como (e desta vez com medo pergunto) como é que um país, tão país, tão português se deprimiu na ilusão e continua a calar a mentira?!?

terça-feira, 11 de março de 2014

LISBOA

Quero começar por agradecer aos meus pais a brilhante ideia que tiveram de me fazer nascer em Lisboa.

Assim foi. Vim aqui parar e mesmo antes do primeiro" buááá" já me diziam alfacinha de gema por culpa do meu avô paterno que também nasceu por cá.
Este avô do meu nome apaixonou-se por uma senhora muito parecida com a Ava Gardner, que perseguiu de eléctrico até à Exposição do Mundo Português e ali se apaixonaram à beira do Tejo.
Esta história que sempre ouvi desde pequenina, não seria tão romântica se lhe faltasse a moldura do rio, as pedras brancas dos Jerónimos, o labirinto dos Jardins de Belém, o mundo aos pés no Padrão dos Descobrimentos e a canela dos Pastéis.
Enfim, tudo isto resultou e o que é certo é que se casaram e tiveram um filho que cresceu em Lisboa e que vive esta cidade com a paixão que só um sociólogo consegue sentir pelos pormenores e pelos cantinhos duma cidade e das suas gentes.
A sorte é que esses olhos são do meu pai! E o meu Pai desvendou-me Lisboa ao longo dos meus últimos 39 anos.

Tal como qualquer outra amiga, de vez em quando encontro-me com ela.
Eu e Lisboa costumamos sair juntas. Combinamos muitas coisas.
É certo que nem sempre lhe ligo, mas Lisboa nunca se esquece de mim!

Há dias em que me perco e me esqueço, mas Lisboa ajuda-me. Lembra-me sempre que os meus olhos verdes não aguentam o seu reflexo sem óculos escuros. Marca-me as horas nos cafés. Faz-me lembrar da fruta nas mercearias e mata-me a sede nos quiosques de ferro.

Lisboa brinca comigo. Faz-me subir calçadas deixa-me descansar nos seus bancos de madeira abre-me avenidas largas e cosmopolitas e estreita-me em becos, travessas e vielas onde ainda me chamam de minha querida.

 Lisboa goza comigo. Prende-me nos jardins enfrenta-me nas cores das fachadas e espreita-me com os óculos de Pessoa ou o monóculo de Eça.

Mas Lisboa faz-me confiar quando me abre as portas do silêncio das Igrejas, quando me guia nas ruas da Baixa, quando se estende aos meus pés num tapete de calcário azul e branco e quando escorrega pelos miradouros.

Lisboa impõe-se quando me deixa sentir-me pequenina e tão sua!

quinta-feira, 6 de março de 2014

A HUVR BOARD OU AS COISAS QUE EU GOSTAVA QUE INVENTASSEM



Esta semana correu por aí um boato virtual sobre a chegada do futuro! Um futuro que nos fazia pairar em cima duma tábua, a 30 centímetros do chão. Loucura!
E eu como fã do Doc e do Michael J. Fox emocionei-me com a novidade! A sério? Já posso? Já posso planar e curvar como se fosse uma pró das manobras radicais?
Não! O estupor do Tony Hawk decidiu gozar com as nossas caras de queixo caído! Só isso!
Como se não lhe bastasse as vezes que nos gozou em cima do skate, fazendo-nos achar que era fácil sacar um 360 Flip… Não sei se te perdoo esta desilusão Tony!

Depois de me recompôr do desgosto desatei a sonhar com mais umas quantas coisas que gostava que fossem inventadas.
Claro que a minha vaidade anseia por soluções milagrosas que ponham termo a dramas estritamente estéticos!
Quantas vezes não desejei ter à mão um frasquinho de verniz cola, capaz de num instante mágico, com uma simples passagem do pincel, reconstruir e fazer crescer na perfeição a unha que parti ao abrir a lata de atum?
E imaginem a alegria meninas, se logo após aquele telefonema dele a convidar-nos para ir à praia pudessemos abrir um frasco e tomar um comprimido que em 5 minutos, no duche, nos fazia cair os pelos de todas aquelas zonas que tanto depilamos!
Mas o meu maior sonho de futilidades é a invenção do Photoshop… em creme! Um pequeno boião que nos apagasse e corrigisse vezes sem conta tudo o que não queremos ver ao espelho! Que sonho!

Desci à terra e ralhei comigo mesma.
“Susana há com certeza coisas mais importantes que gostarias de experimentar, não!?!” Há, claro… Gostava que se “desinventassem” todas as doenças. As mortais. As que não têm cura e nos fazem definhar! Devíamos todos morrer doutra forma; transformarmo-nos em fumo ou em nuvens, como queria o José Gomes Ferreira, “Na morte de Manuela Porto”.
Gostava que “desinventassem” as armas! Que um murro ou um puxão de orelhas bastasse.
Gostava que “desinventassem” o dinheiro. Que as trocas directas nos valessem novamente e que a água e todas as energias fossem um bem comum, acessível ao consumo de todos, duma forma sustentada e responsável.
Mas isto talvez não sejam vontades. Acho que são utopias...
Por isso voltei aos desejos. Ao que eu gostava que fosse inventado...
E aqui voltei à falta de originalidade. Sim, também gostava que se inventasse o teletransporte!
Que as filas de trânsito na ponte acabassem de vez e a praia estivesse sempre ao alcance de um estalar de dedos. Ou que a mesa marcada no restaurante e a noite de copos no Bairro não nos obrigassem a 35 voltas ao quarteirão ou a 40 minutos de espera, mais 24 manobras e 7€ para estacionar no parque!
Também achava muita piada se houvesse uma “bebida de propulsão” que nos permitisse num gesto súbito disparar num salto longo e muito alto, capaz de ultrapassar velhinhas nas ruas estreitas da Mouraria, ou atravessar a Avenida da Liberdade dum lado ao outro sem ter de esperar pelo verde do semáforo. Ou que num instante o salto nos levasse da Baixa a todos os miradouros!
E depois lembrei-me que no primeiro lugar dos meus sonhos de engenharia biomédica está a possibilidade de controlar o volume da nossa própria audição!
Não seria fantástico podermos regular os decibéis do mundo com o poder da mente?
Não mais martelos pneumáticos às 8 da manhã! Não mais remixes da Adele vindos da casa da vizinha! Não mais estórias de vida do palerma do gabarolas que nos ofereceu uma bebida na festa de anos da nossa amiga. Que sonho!

Mas se calhar é melhor eu ficar por aqui, senão ainda algum maluquinho se inspira e inventa uma aplicação de “Shazam de pessoas”…

terça-feira, 4 de março de 2014

AS (TAIS) APARÊNCIAS QUE ILUDEM...


Naquele café de bairro, à hora da saída da missa, aquele casal que entrou destoava de tudo e entre todos.
As mesas estavam quase todas ocupadas, com famílias inteiras, com o carrinho de bébé da praxe entre cadeiras, velhinhas habitueé, domingueiros e ciclistas de passeio, bebendo café de capacete.
O casal parou por uns segundos no meio do café, à vista de todos, que nitidamente tentavam ser discretos nos olhares.

Ela tinha para cima dum metro e oitenta. Morenaça vistosa, maquilhada mais para sábado à noite do que para domingo de manhã. Bunda imperativa (sim era brasileira) em calças de ganga manchada, a rebentar de justas! Para completar o blusão era de napa cor de rosa “bubble gum” e das mangas, do pescoço e do umbigo à mostra espreitavam tatuagens cheias de cor, símbolos chineses e muitas flores.
Ele tinha para baixo dum metro e 70, sem contar com a área que os músculos “anabolizados” ocupavam. As calças eram de fato de treino, bem gastas e a t-shirt, eu acho que já não lhe servia há muito tempo, ou então foi à máquina e encolheu! O blusão do fato de treino tinha uma capuz, consideravelmente maior que a cabeça dele, dando-lhe um aspecto de “suspeito dum caso de máfia à saída do tribunal, tentando-se esconder das câmaras”. Não contente com o disfarce, ainda trazia uns óculos escuros espelhados, completamente despropositados, considerando que lá fora o dia estava mais para lusco fusco de final do dia, do que para meio dia e sol a pique.

Perante tudo isto o café abrandou, no mínimo…
Não, não é bonito fitar ninguém, mas aquele casal destacava-se e era impossível refrear a curiosidade.
Eu acho que alguns até se sentiram meio intimidados. O aspecto era duro, quase agressivo. Talvez por que nem sequer sorriam…

Os segundos que passaram neste escrutínio acabaram com eles sentados na mesa ao meu lado.
Voltei à revista que estava a ler e de onde fingi nunca ter saído.
O empregado aproximou-se para os atender:
- O que é que vai ser?
Ele finalmente tirou os óculos. Pensou, passando os dedos pela barba desenhada nos seus largos maxilares:
- Traga-me um chá verde e uma torradinha…

?!?


domingo, 2 de março de 2014

OS "TELEDISCOS"



Há uma opinião que gosto consideravelmente de expressar de vez em quando: “isto é tão gratuito!”

Gosto deste conceito, não literal. Bom literalmente também me agrada, quando vale a pena!
Gosto porque resume. Resume o pouco esforço de quem se pronunciou, de quem se expôs ou tentou criar.
Gosto porque aponta a redundância, coisa que não gosto. Gosto porque denuncia o previsível, condição que me desilude.
E gosto pelo tom blasé da expressão; porque tenho de assumir que o sou, muitas vezes…
Porque ser blasé acompanha algum sarcasmo, figura de estilo que me atrai, pelo perigo da fronteira ténue entre a ironia, a ofensa e o humor (e aqui também assumo a tentativa “gratuita” de me justificar!)

Hoje falo nisto por causa duma estupidez. Óbvio…
Uma estupidez que tem passado vezes sem conta na MTV. O vídeo da Shakira com a Rhianna!
Eu avisei-vos que era estúpido! Mas são 3 da manhã e não dá para mais!

Primeiro que tudo, mas não o principal, os cenários. Quem é que põe uma cama no meio das escadas?
Segundo e por aqui me fico porque não há muito mais enfoque, toda a música parece dizer respeito a uma amarga e nociva atracção por um belo rapaz, que pelos vistos é um engatatão de primeira porque conseguiu sacar a Shakira e a Rhianna, que estão danadas por não o conseguirem esquecer!
Ora eu cá, quando quero desabafar com uma amiga a respeito dum belo malandro, não costumo fazê-lo semi-nua! Além disso os lamentos não nos inspiram “cuzadas” nas paredes, nem nos dão uma súbita vontade de confirmar se a tinta é Cin acetinado ou se o papel de parede arranha!
Curiosamente entre raivas e queixas, também não nos dá para fumar charutos em chaise-longues, deitadas lado a lado de pezinhos encostados na cara uma da outra, espreguiçando-nos, contorcendo-nos ou aproveitando para fazer uns exercícios de abdominais e glúteos.
Não meus amigos, isto não acontece! Muito menos entre 3 penteados diferentes, cabelos ao vento, vindo sabe-se lá de onde ou em cima de saltos de 10 centímetros!
Nada disto acontece entre amigas, nem mesmo quando falamos de sexo.
Por último quero acreditar que a minha amiga e eu, falando, cantando ou discutindo, não soamos a duas ovelhas a balir!

Posto isto, e porque a televisão está sintonizada na MTV há 3 horas, só me apraz dizer “que coisa tão gratuita”!
E era isto. Hoje era só isto!