Um blogue com sintomas de vontade parva de escrever sobre tudo, ou sobre nada. Se o Seinfeld fez uma série nessa permissa eu também posso ter um blogue aí assente, ou não? Um blogue com sintomas de opinião e um prognóstico reservado à liberdade de expressão. Tudo com mais (ou menos, se me apetecer) caracteres do que aqueles que o Twitter me permite e tudo em sede própria, porque o Facebook às vezes cansa-se de mim.
segunda-feira, 2 de novembro de 2015
ELA. SÓ ELA.
Há uns tempos, em conversa com um amigo falávamos duma amiga comum, de infância e juventude.
Uma amiga que noutros tempos era uma criança apagada e tímida. Que noutros verões era uma adolescente insegura, gordinha e complexada. Uma amiga com quem crescemos e que já desde esses tempos eu lhe reconhecia muito mais do que aquilo que lhe perguntavam. Mais do que aquilo que dela esperavam.
Falávamos sobre a mulher em que se tornou!
Eu falava. Ele acenava entre um sim e um “hum hum”. Eu exultava-a. Ele lembrava-se.
“Estive com ela a semana passada num jantar. Que gira que ela está! Tem uma pinta desgraçada”
“Sim…”
“Estivemos horas à conversa! Acho que já não a via há uns bons 10 anos! Tinha vindo do Porto. Foi ver uma exposição no edifício AXA. Adorou! Também já estive nesse espaço e adorei o projecto! Ela vai escrever sobre isso. Eu adoro lê-la! Sempre escreveu tão bem!”
“Sei…”
“Tenho seguido o blogue dela! É incrível o trabalho dela, não é?”
“´Hum, hum…”
“E as fotos! Brutais! Já fui a duas exposições dela! Muito boas! Ela aliás tem uma visão muito interessante sobre o que a rodeia! Sempre teve! É fantástico o trabalho dela!
“Sim…”
“Contou-me que está a escrever um livro! Não me adiantou pormenores, mas estou curiosa! Faz todo o sentido, com tudo o que já tem escrito!”
“Ela já foi casada, não foi?”
Pausa…
“Já…” respondi eu entre dentes.
“Não teve filhos, pois não?”
Pausa… Tentei ignorar. Continuei.
“Fiquei muito contente por lhe poder dizer o quanto a admiro e o que ela tem feito e conquistado! Gosto muito dela! De gente assim tão capaz de se reinventar! Gente que dá cartas e que tem esta capacidade imensa de criar! Achei-a muito feliz! Muito realizada! Que pinta!”
“Sim. E afinal continua sozinha. Parece que ninguém lhe pega. Porque será?”
Pausa… E mais pausa longa. Silêncio. Espanto!
Levantei-me. Incrédula pelo que tinha ouvido! Virei-lhe costas! Sem resposta para aquela pergunta absurda!
Fui lá fora fumar um cigarro. A remoer no que tinha ouvido.
Como é possível? Uma mulher de sucesso! De referência na cultura! Que cresceu verdadeiramente! Com tanto mundo! Tão plena!
Ali em poucas palavras, reduzida a uma insinuação daquelas. Como se lhe faltasse legitimidade. Por não fazer parte de um par. Por ser só uma. Só ela!
(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 17/03/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/ela-so-ela-por-susana-beirao/
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