Há histórias que nos perseguem. Episódios que para além do terramoto inicial, abalando algum equilíbrio, se revelam afinal, ao longo das nossas vidas, uma escala de Richter sem grau máximo e com réplicas intermináveis.
Tudo porque de meninas vamos para moças (um termo em desuso, mas que se refere a uma idade bem concreta) e de moças nos tornamos mulheres. E o que os ouvidos de menina ouvem, só a moça consegue entender e só a mulher consegue reflectir.
No final da década de 80, andava eu no Colégio do Sagrado Coração de Maria, com 13 anos, fomos por altura da Páscoa visitar um centro de acolhimento de raparigas adolescentes em risco. “Calhou-me” uma Raquel. Tinha 14 anos, mas parecia ter mais 10 anos que eu!
Era magra, macilenta. Tinha 14 anos e estava grávida!
Eu tentei. Eu tentei conversar com ela.
Aliás, eu acho que só pude ouvi-la. Não podia dizer-lhe fosse o que fosse, pois a cada palavra dela, eu ia percebendo que nada, do alto dos meus 13 anos privilegiados, lhe iria acrescentar algum conforto ou alguma epifania. Ela conhecia um mundo completamente à parte do meu. E eu ouvia-a. Atentamente, mas tão desorientada.
A medo e bêbeda de inocência perguntei-lhe se o pai da criança a acompanhava e se já a tinha visitado ali no Centro. A resposta dela tirou-me o pio, o fôlego e os meus alicerces:
” O pai?! Eu sei lá se estou grávida do meu pai ou do meu irmão…”
(texto publicado na plataforma MARIA CAPAZ 14/02/2015)
http://mariacapaz.pt/cronicas/um-mundo-parte-meu-por-susana-beirao/
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