Volta e meia paira no ar um mistério sobre uma das poucas certezas desta vida: a Morte.
Um mistério que mascara os factos. Uma intriga que contorna o desfecho.
Um ponto de interrogação que só se pronuncia em surdina. A medo. Com pudor de saber o que aconteceu.
Quando alguém se mata, todos se calam!
Entendo o choque. Pesa-me a tristeza. Mas vergonha?
O suicídio é o fim abrupto escolhido por alguém, mas é o desfecho duma doença!
Tal como a morte, como desfecho duma pneumonia filha da mãe, que derrapou sem solução num corpo frágil!
O suícidio é o nome que se dá a uma morte repentina! Tal como acidente de viação, aneurisma ou queda aparatosa duma ravina!
Alega-se respeito por não se repetir esta palavra…
Respeito por quem? Por quem se matou?
A vida das pessoas define-se pela forma como vivem e não como morrem!
Quem se mata merece-nos acima de tudo o respeito de entender!
Que reconheçamos e denunciemos o seu sofrimento!
Respeito por quem? Pela família?
A família fica atónita! Fica dormente! Presa a quem perdeu. Caída pela rasteira que quem morreu, lhes pregou!
A família o que mais quer com certeza é que não esqueçam quem se foi!
E o que mais quer com certeza é que não julguem quem se matou, pelo silêncio que se impõe à volta duma palavra!
A família não quererá com certeza sentir a vergonha que esse “shiiiu” grita!
A minha vergonha fica para a sociedade que baixa os olhos e fala baixinho sobre tudo isto!
Não entendo! Não entendo as “desconversas” sobre a morte.
Os sussurros sobre quem morre e a semântica da morte. “Doença prolongada”?! Nem de Cancro conseguimos falar!
Doença prolongada é o Sofrimento de quem se mata, que achamos homenagear quando nos calamos!
Já dizia Mário de Sá Carneiro “ Quando eu morrer batam em latas, rompam aos saltos e aos pinotes…” que é como quem diz à moda informal e de concerto no século XXI, “façam barulho”!
Não se esqueçam que quando nos calamos assim, apontamos o dedo acusatório a quem já se sente isolado, ainda vivo, pensando em morte!

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