terça-feira, 4 de março de 2014

AS (TAIS) APARÊNCIAS QUE ILUDEM...


Naquele café de bairro, à hora da saída da missa, aquele casal que entrou destoava de tudo e entre todos.
As mesas estavam quase todas ocupadas, com famílias inteiras, com o carrinho de bébé da praxe entre cadeiras, velhinhas habitueé, domingueiros e ciclistas de passeio, bebendo café de capacete.
O casal parou por uns segundos no meio do café, à vista de todos, que nitidamente tentavam ser discretos nos olhares.

Ela tinha para cima dum metro e oitenta. Morenaça vistosa, maquilhada mais para sábado à noite do que para domingo de manhã. Bunda imperativa (sim era brasileira) em calças de ganga manchada, a rebentar de justas! Para completar o blusão era de napa cor de rosa “bubble gum” e das mangas, do pescoço e do umbigo à mostra espreitavam tatuagens cheias de cor, símbolos chineses e muitas flores.
Ele tinha para baixo dum metro e 70, sem contar com a área que os músculos “anabolizados” ocupavam. As calças eram de fato de treino, bem gastas e a t-shirt, eu acho que já não lhe servia há muito tempo, ou então foi à máquina e encolheu! O blusão do fato de treino tinha uma capuz, consideravelmente maior que a cabeça dele, dando-lhe um aspecto de “suspeito dum caso de máfia à saída do tribunal, tentando-se esconder das câmaras”. Não contente com o disfarce, ainda trazia uns óculos escuros espelhados, completamente despropositados, considerando que lá fora o dia estava mais para lusco fusco de final do dia, do que para meio dia e sol a pique.

Perante tudo isto o café abrandou, no mínimo…
Não, não é bonito fitar ninguém, mas aquele casal destacava-se e era impossível refrear a curiosidade.
Eu acho que alguns até se sentiram meio intimidados. O aspecto era duro, quase agressivo. Talvez por que nem sequer sorriam…

Os segundos que passaram neste escrutínio acabaram com eles sentados na mesa ao meu lado.
Voltei à revista que estava a ler e de onde fingi nunca ter saído.
O empregado aproximou-se para os atender:
- O que é que vai ser?
Ele finalmente tirou os óculos. Pensou, passando os dedos pela barba desenhada nos seus largos maxilares:
- Traga-me um chá verde e uma torradinha…

?!?


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