quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A SOCIEDADE DOS RÓTULOS


Ontem as feministas viralizaram cheias de admiração e orgulho, o discurso de Ryan Gosling, de agradecimento à sua mulher, que ficou em casa sozinha a cuidar da criança mais velha, enquanto estava grávida da criança mais nova e cuidava do irmão, que definhou com um cancro. Sozinha. Sem o apoio do marido, que por causa deste bastidor pôde ir filmar para longe.
Hoje é o agradecimento de Obama a Michelle, que se tornou viral. Aquela Michelle que, segundo o próprio Barack, abdicou da sua vida profissional, para o apoiar naquilo que não escolheu para ela.
Só para esclarecer e tirar uma teima: feministas da minha alma, vocês aperceberam-se que se derreteram todas, exaltando o marido que agradece o apoio duma "esposa recatada e do lar" que escolheu os bastidores da vida do seu homem, certo?
Não me interpretem mal! Eu admiro, e sempre admirei, estas mulheres. Vocês é que não costumam admirá-las...

Posto isto, quase me entusiasmei, com a oportunidade de vos agradecer a incoerência que continuo, tantas vezes, a constatar na forma dos discursos e movimentos feministas que proliferam. Na forma, mais que no conteúdo.
No entanto, a forma, continua a questionar-me porque tanto refuto o rótulo de feminista. E por isso em vez de agradecer decidi insistir naquilo que prefiro chamar-me: Humanista. Só. (como se fosse pouco)

Porquê? Porque o cor-de-rosa e o azul não me incomodam nada.
Acredito que há dois géneros e que o neutro existe apenas no it da lingua inglesa. Homens e mulheres são diferentes e gosto de exaltar e respeitar muitas dessas diferenças.
Não sou igualitária, porque sim. Mais do que pela Igualdade de géneros, gostaria de ser livre para lutar pela Paridade.

Acredito que a importância do Feminismo, na história da sociedade, reside acima de tudo na conquista da liberdade de escolhas e por isso refuto a forma como os movimentos feministas deste século me impõem tantas vezes um guião de condutas e pensamento.

Não acredito, nem quero construir uma sociedade de amazonas. Quero apenas focar-me na construção e evolução duma sociedade par e respeitadora de cada um.
Acho que quanto mais nos debatemos com as questões de género, mais vincamos as diferenças que desequilibram a sociedade e alimentam as "abébias".
Recuso quotas, datas especiais, paragonas "da primeira mulher presidente do raio que o parta" ou palavras novas tipo femicídio ou cidadona! Não obrigada! Nunca fui grande apreciadora de guetos.
Homens e mulheres destacam-se. Ponto. Porque sim e porque todos fazemos parte. Juntos.
Enquanto andarmos nisto e nestas trocas de galhardetes, continuamos a anos luz da questão principal.


Em tempos, recentes, acreditei que este revivalismo do Feminismo era essencial na afirmação das diferenças. Depressa entendi que estas minhas ilusões sobre o que eu achava que seria o caminho natural do tal Feminismo que tanto urgia descolar-se da caricatura e da percepção pejorativa que ainda subsiste sobre ele, não ia acontecer.

O tal "ser feminista". Que eu declino, muito obrigada. Sim, sou humanista.


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