quinta-feira, 19 de junho de 2014

CARTA DE AMOR



Podia escrever-te uma carta de amor…
No tempo da guerra era assim que faziam. Mandavam sacas cheias de envelopes com molduras às risquinhas azuis e encarnadas, por avião, para as antigas colónias.

Cartas cheias de novidades! Sobre o casamento da prima Ofélia e a 4ªclasse que o Carlitos terminou, ou o enxoval que a Dª Augusta nos está a costurar e o LP dos The Animals, que a tua irmã mandou vir de Londres.
Cartas cheias de beijos carimbados com batom e folhas impregnadas do perfume que comprei na Baixa e que tu tanto gostas. Folhas separadas com as flores secas que me deste e um retrato meu dentro do mesmo envelope.

Pois é… eu podia escrever-te uma carta de amor.
Podia contar-te umas novidades, mas daqui a 3 dias, tudo mudou! Sabes, é que o tempo hoje não passa. Corre!
E o que sinto? Será que enche tanto papel? Estou certa que sim, mas digo-te todos os dias em quatro ou cinco palavras, escritas em modo telex. Stop.
E se há mensagens onde me aventuro num relato, uso abreviaturas. Como se o “u” e o “e” do “que” me roubassem uma eternidade para os acrescentar...
E há dias em que nem te escrevo. Agora inventaram uns bonequinhos que nos traduzem!
E o retrato? Mandamos selfies!

Podia escrever-te uma carta de amor, mas parece que tal como o cinema nos roubou tantas vezes os livros o Skype roubou-nos as cartas. E o whatsapp aumentou-nos a capacidade de síntese (isto para ser simpática na análise, claro.)

Eu posso escrever-te uma carta de amor…
Bem sei que já nem tenho calos nas falangetas, mas deixa cá ver se encontro uma caneta…

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