Um blogue com sintomas de vontade parva de escrever sobre tudo, ou sobre nada. Se o Seinfeld fez uma série nessa permissa eu também posso ter um blogue aí assente, ou não? Um blogue com sintomas de opinião e um prognóstico reservado à liberdade de expressão. Tudo com mais (ou menos, se me apetecer) caracteres do que aqueles que o Twitter me permite e tudo em sede própria, porque o Facebook às vezes cansa-se de mim.
quarta-feira, 9 de abril de 2014
O "NÃO" DA VIDA
Infelizmente a vida tem me tornado manifestamente cínica e anisosamente acutilante.
Longe de mim fazer uma apologia da tristeza, mas o facto é que me intriga cada vez mais o desespero com que a maior parte das pessoas nega o negativo.
Provoca-me, esta jovem adulta educação assente na felicidade adquirida e no sonho americanizado do “podes tudo” e na crença teimosamente convicta de que valemos muito e vamos lá chegar! Sabe-se lá onde! Todos!
Provoca-me no sentido em que me faz reagir, mal, às frases feitas e aos clichês que a maior parte toma como apoio e incentivo, nas piores horas.
Provoca-me no sentido em que nos tolda a capacidade de lidar com as contrariedades e as vicissitudes da vida. Com a realidade basicamente. Porque se há na vida alguma surpresa, algum lucro, alguma aspiração, e não um facto, essa sim, será a tal Felicidade.
Os factos da vida são na sua essência negativos. A morte certa ao nascer. A dor ao crescer. A perda ao continuar…
Mascarar ou negar a co-existência com isto é só dificultar-nos a vida! O que é fatidicamente certo na vida, passa a ser ainda mais difícil de encarar.
Se há postalinhos que te aconselham a rir a bandeiras despregadas, também os devia haver aconselhando-te a chorar desalmadamente!
É uma manifestação do que sentes. E tem que se manifestar.
Só através do alívio de teres chorado é que recuperas algum conforto.
Acredito que só chorando é que drenamos a tristeza.
Acredito que só chorando é que aguentamos a dor.
Acredito que só chorando é que quase secamos a saudade.
Não podemos continuar a contrariar certas emoções, só porque se convencionou que a vida é uma alegria parva de manhã à noite! Não, não é!
E a alegria da vida reside exactamente em todas estas manifestações. Acredito que só através de todas elas é que nos equilibramos.
Repito que não quero fazer nenhum apologia da tristeza…
Quero apenas acreditar que só através da vivência da tristeza conseguimos a gratidão necessária à felicidade.
Quero apenas contrariar o corriqueiro e afirmar que desistir é uma opção.
Uma opção que implica coragem; e que essa coragem aponta outro caminho possível, ao desistir do anterior.
Quero apenas contrariar o corriqueiro e dar o ombro num velório, sem palavras de apoio ou motivação, sem o habitual “muita força” ou “tens de sorrir, que ele não te queria ver triste”.
Não há força que aguente certos desgostos, a não ser a força do curso natural dos nossos instintos e esses dizem-nos muitas vezes, naqueles momentos, para chorar, para nos calarmos, para nos isolarmos, para perdermos o pio e sentir apenas o choque. Por alguma razão é. Obedeçam! Cedam!
A única coisa que devemos (estou cada vez mais convencida disso) é que temos de ser permeáveis a todas as energias desta vida e devemos manifestá-las no seu momento. No seu processo.
Porque o tempo não cura! Só cicatriza…
Que o faça bem!
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